Footnote: Tipo de Personalidade e Ordem Social

O capitalismo neoliberal ocidental é uma forma de socioeconomia com um modus operandi sufocantemente estreito, que é essencialmente desa­fin­ado com a maioria dos seres humanos. De fato, é totalmente incompatível com um em cada 70 indivíduos; são 100 milhões de pessoas em todo o mundo. Então deveria ter um lugar aqui? [PDF] [English]

Estou perfeitamente contente e à vontade com o ambiente natural do generoso planeta em que vivo e com o universo além dele. Com estes eu não tenho conflito. No entanto, sinto uma incompatibilidade avassaladora com a sociedade humana, particularmente aquela em que nasci, cresci e passei a maior parte da minha vida. Não obstante, não acho difícil construir em minha imaginação a forma, princípios e protocolos de uma ordem social que sejam benignos para todos, incluindo a elite da presente ordem.

Posso dizer, com toda a honestidade, que trabalhei extremamente duro ao longo de toda a minha vida. No entanto, agora em 2020 — meu 78º ano — recebo uma renda pessoal total de £92,49 por semana [US$107,62], que é relutantemente concedida por uma sociedade que me considera oficialmente um preguiçoso e inútil. Isso representa 28% do salário mínimo contemporâneo do Reino Unido e 16% do salário médio do Reino Unido.

Este valor não está protegido contra inflação. Ele permanecerá nessa fig­ura pelo resto da minha vida, desde que não desapareça por completo como resultado de algum tipo de "supervisão administrativa". Isso sign­ifica que em 10 anos [se eu ainda estiver vivo] ele terá apenas metade do poder de compra que possui agora.

Trabalho duro e sem dinheiro me sugerem que devo ser de alguma forma incom­patível com o sistema econômico sob o qual sou obrigado a viver. Então, qual é exatamente a natureza dessa incompatibilidade?

Não é falta de habilidades, talentos ou conhecimento técnico relevantes. Eu tenho muitos desses. Não é falta de motivação: sempre me esforcei. Sou naturalmente auto-motivado. Portanto, deve ter algo a ver com a maneira como interajo com a sociedade. No entanto, pesquisei, aprendi e apliquei todas as abordagens e pro­cedimentos estabelecidos para adquirir trabalho e fazer negócios. Eu tenho sido honesto e sincero em minhas interações com as pessoas, então a culpa não é do meu caráter [apesar de admitir que honestidade e veracidade não parecem ser atributos daqueles que têm sucesso nos negócios]. A única coisa que restou que poderia ser o culpado de minha incompatibilidade com a ordem social incumbente é minha personalidade.

A Minha Personalidade

Eu sou um trabalhador obsessivamente esforçado: um perfeccionista auto-motiv­ado. Aprecio longos períodos livres de interrupção e distração para poder me con­centrar na minha obsessão atual. Eu sou muito sensível ao som. Lembro-me de chorar durante um recital de tambor feito por um aluno mais velho, em uma função de final de período na minha escola primária. Ainda hoje, sons estranhos facil­mente me incomodam e atrapalham significativamente meu pensamento. Eu tenho tolerância zero para besteiras, porque seu conteúdo não faz parte da realidade universal. Sou uma pessoa profundamente carinhosa e sinto empatia com os outros, tanto na alegria quanto no sofrimento. O problema é que ele não aparece no meu rosto nem na linguagem corporal. Meu rosto, geralmente sem expressão, parece demonstrar que tenho um ar de arrogância em relação às pessoas. Embora eu não seja nem um pouco arrogante, essa percepção por parte dos outros impõe uma barreira de comunicação, gerando dentro de mim uma incapacidade social, que me afasta das pessoas.

Como resultado, fui vítima de bullying: não tanto na escola, mas certamente na viagem de ônibus de 26 quilômetros que eu tive que pegar todas as manhãs e noites. Esse bullying foi cometido inteiramente por alunos de outras escolas, que não me conheciam bem. O assédio moral foi feito inteiramente por meninas. Sofri isso por 5 longos anos, até que uma professora de uma dessas outras escolas, que fez amizade comigo e nos sentamos juntos no ônibus e conversamos sobre a vida, o universo e tudo. Compreendo perfeitamente, que minha personalidade deve ter parecido estranha para esses garotas no ônibus. Não os critico por serem ofend­idos. Mas a reação deles: a do bullying implacável, considero indesculpável. Minha inaptidão social chegou em casa, quando, no Sexto Período, meu pai criticou-me fortamente, por nunca ter trazido uma garota para visitar. A verdade é que eu não conhecia nenhuma garota.

Meus pais me pareciam excessivamente intolerantes comigo, mas não com minha irmã. Eu poderia dizer algo, que para mim parecia bastante casual e trivial, o que precipitaria um discurso retórico da minha mãe e uma raiva do meu pai. A vida era como andar sobre cascas de ovos, imaginando quando seria a próxima vez, que eu pensaria e sem saber o porquê. Meu pai costumava me bater na cabeça por dizer coisas e eu não conseguia entender o que eu havia dito, que era tão ofensivo. Isso alienou-me dele. Se isso acontecesse em companhia formal, ele me repreenderia, chamando-me de idiota e tratando-me com indeferença pelo resto do tempo. Para ser justo com meu pai, ele teve uma lesão cerebral durante a Segunda Guerra Mundial, o que mudou sua personalidade. Isso provavelmente também afetou minha mãe. Não penso que meus pais tenham alguma idéia de que eu seja, de alguma forma, 'diferente'.

O verão em que eu tinha 10 anos foi a última vez que saí de férias com meus pais. Meu pai havia dito, que eu sempre arruinava as férias deles. Eu não tinha ideia do porquê e ele não deu mais detalhes. Por outro lado, minha irmã, quando criança e mais tarde ao longo de sua vida de casada até a morte de meus pais, sempre passava férias com eles. Depois dos 10 anos, passei minhas férias de verão com meus avós. Quando eu tinha 13 anos, meu pai levou-me para um acampamento da ACM no Lake District. Fui enviado para lá todos os anos sozinho a partir de então. Quando eu tinha 14 anos, fui abusado por um membro homossexual da equipe. Quando fui para lá com um amigo da escola, aos 16 anos, fui falsamente acusado pelo chefe do ACM de molestar meninos. Descobri que a acusação era originada pelo homossexual, que havia abusado-me dois anos antes. Depois disso, passei minhas férias em casa sozinho.

Quando entrei no mundo do trabalho, meus chefes e colegas de trabalho reclamar­am, que minha expressão facial não transmitia nada sobre como eu me sentia ou o que estava pensando. Eles disseram, que eu seria um excelente jogador de poker, embora não o fizesse porque não suporto jogos. Parece que, quando pensei que estava reagindo facialmente — sorrindo, por exemplo — meu rosto físico não est­ava sorrindo: ainda estava em branco ou projetava alguma outra expressão inad­equada. Era apenas a minha mente, que estava sorrindo. Não obstante, com o pas­sar do tempo, comecei a dominar a arte de ocultar ou contornar minha persona­lidade, e o meu rosto sem expressão, que ela precipitava por meio de normas sociais, que aprendi como um papel teatral. No entanto, a sobrecarga mental desse papel contínuo era extremamente fatigante. Durante a década de 1970, trabalhei em um escritório localizado na tranquilidade de uma antiga mansão, em uma pro­priedade rural. Lá, enquanto meus colegas iam a um pub local na hora do almoço, eu seguia por um caminho na floresta, passando a hora do almoço apenas andando sozinho, a fim de fazer uma pausa no estresse do meu papel contínuo.

Não posso conceder nem aceitar deferência, mesmo que tente fingir. Eu sou muito transparente. Eu também tenho uma desconfiança inerente a todas as formas de autoridade. As noções de deferência e hierarquia são anátemas para mim. Assim, no trabalho, não aceitei de bom grado o conceito de chefe dizendo-me o que fazer. Por sorte, sempre pareci encaixar-me em um trabalho, no qual eu era essencial­mente auto-gerido. Isso começou, porque eu era programador em uma emp­resa, onde a gerência praticamente não sabia nada sobre programação. O uso de comp­utadores era muito novo. Os empregadores posteriores pareciam gostar do meu aspecto de autogerenciamento, porque isso lhes salvou a tarefa de me admin­istrar.

Não vejo a verdade em função da localização, circunstância ou companhia, embora não tenha nenhum escrúpulo em mentir para salvar a vida. Às vezes, isso leva-me a dizer o que a maioria consideraria inapropriado. Muitas vezes, isso inclui apenas verdades abertamente francas, que as pessoas, geralmente, consideram melhor não serem ditas ou pelo menos mantidas fora da vista ou contornadas. No trab­alho, isso levou-me a ganhar uma reputação com a gerência por ser o que eles chamaram de "não-diplomático". Enquanto estava na faculdade, em 1962, contei uma piada que meus colegas muito revoltados consideraram totalmente inapro­priados para a empresa presente. Eu não conseguia entender o porquê naquele momento. Também tenho propensão a divulgar, o que a maioria seria considerar, "demais informação", o que contrasta fortemente com as queixas de que minha ex­pressão facial e linguagem corporal revelam muito pouco.

Sinto-me desconfortável como parte de um grupo de mais de 4 ou 5 outras pes­soas. Em um grupo de mais de 7 pessoas, eu costumo ficar em silêncio e sem ser assertivo. Consequentemente, nunca tive muitos 'amigos'.

Na escola, esses eram quase invariavelmente colegas que compartilhavam o mes­mo interesse estreito. Na escola primária, eu era um dos três amigos introvertidos que sempre andavam juntos. Nosso interesse comum era 'investigar' todos os tipos de objetos e eventos 'suspeitos' dentro da escola. Sob pressão de meu pai, eu desviei-me um dia para tentar participar de um jogo informal de futebol com os amigos do filho de um dos amigos de meu pai. Isso aconteceu apenas uma vez, mas fiquei arrasada quando meus dois amigos originais me evitavam a partir de então. O jogo de futebol havia sido uma causa perdida desde o início. Eu sou fisicamente desajeitado, embora não obviamente. No entanto, a falta de coorden­ação física significa que não posso jogar futebol ou críquete, porque não posso jogar, pegar ou chutar uma bola. Simplesmente não funciona, não importa o quanto eu tente ou por quanto tempo pratique. Na minha escola secundária, eu era novamente um dos três amigos um tanto introvertidos. Estávamos ligados por um interesse comum no rádio de ondas curtas. Também lembro-me de passar muito tempo sozinho em casa, perseguindo alegremente esse hobby de construir e operar rádios de ondas curtas e erguer variedades de antenas.

Por outro lado, posso dar palestras a grandes audiências. Mas isso não é uma situ­ação interativa: é um monólogo. Lembro-me de dar a palestra da Sexto Período mais entusiasticamente recebida do meu ano às três classes da Sexto Período combinadas, presididas pelo diretor da escola. Foi uma palestra bastante ilustrada sobre a história das armas, para a qual peguei emprestado um grande número de armas pequenas de um amigo de meu pai, que era colecionador de armas.

Sempre tive grandes dificuldades em interagir com as pessoas e em formar rel­acionamentos duradouros. Quando saí da escola, imediatamente perdi contato com meus 'amigos'.

Eu odeio esportes coletivos. Fui forçado a jogar futebol em uma escola, rugby em outra e críquete em ambas. Definitivamente, NÃO sou um jogador de equipe. Por outro lado, adoro correr, porque aqui eu 'competo' apenas comigo mesmo e com o relógio. Até os 72 anos, participei em mini e meia-maratona.

Isso revela outro aspecto imutável da minha personalidade: sou inerentemente não competitivo. Lembro-me de meu pai me castigando depois de uma reunião de pais da escola primária porque o diretor havia dito a ele "... ele parece não querer vencer contra dos seus colegas", no sentido esportivo e acadêmico, é claro. Eu nunca consigo entender a obsessão da sociedade pela competição. Só consegue dissipar a grande maioria do esforço humano trabalhando contra os esforços dos outros, nem criando e nem produzindo nada. Parece estranho que, tendo sido imerso toda a minha vida em uma sociedade competitiva e criado em uma família com um etos arraigado de competição, eu seja inerentemente não competitivo. Não é uma reação na minha parte: é simplesmente o jeito que eu sou.

Sendo inerentemente não competitivo, eu naturalmente aceito a noção de cooperação. Infelizmente, minha dificuldade em estabelecer relacion­amentos com os outros deixa-me inepto em trabalhar ou brincar com os outros. Assim, para mim, a cooperação é extremamente estressante, mesmo que eu aprecie - de fato, almeje - a idéia.

Mesmo desde tenra idade, os exames eram, para mim, uma barreira impermeável ao progresso. Eu simplesmente não podia passar por eles. Eu fui reprovado no exame de 11+, apesar de meu diretor da escola ter dito aos meus pais para não se preocuparem e que eu passaria facilmente. Então eu não poderia ir para a escola secundária tipo grammar. Eu consegui passar o exame 13+. Este foi um exame opcional realizado dois anos depois por aqueles que falharam no 11+. Então agora eu poderia frequentar a escola segunária grammar. Por meio de uma mudança fortuita, pude frequentar a segunda melhor escola grammar no país. Eu ganhei o nível de inglês 'O' um ano mais cedo [uma habilidade fragmentada]. Mas fiz mal no nível 'A', tendo que refazer a matemática um ano depois na aula noturna. Eu tentei um diploma em tecnologia avançada e também um diploma universitário externo em Matemática e Física. Eu falhei ambos. Não obstante, essas falhas não ocorrer­am por falta de esforço, conhecimento ou habilidade. Eu simplesmente tinha um desprezo inconsciente imóvel para exames. Eu não tinha controle sobre isso. Para mim, os exames não eram reais. Eles eram uma farsa.

Sou um excelente observador. Consigo focar intensamente nos detalhes, mas tam­bém posso ampliar instantaneamente e voltar a partir de uma grande visão geral — uma habilidade que me dizem ser bastante rara. Sou péssimo em ler: sou dis­léxico e discalculico. Eu só consegui lutar para ler pouquíssimos livros na minha vida. Por outro lado, sou um excelente escritor, tendo completado um livro e arti­gos associados, totalizando mais de um milhão de palavras.

Não entendo a noção de valor monetário. Para mim, é um paradoxo: uma régua elástica artificial usada para medir uma imensa diversidade de iguais contra de diferentes em termos de uma única unidade adimensional que não tem relação nenhuma com a realidade física.

Consegui sustentar um negócio por 15 anos, principalmente a partir do trabalho realizado por um ex-colega e também por parentes que tinham negócios. Abordei a tarefa de criar contatos comerciais de uma maneira muito metódica e sistemática. Planejei e desenhei mapas estilizados do meu território proposto. Escrevi um pacote abrangente de software de gerenciamento de contatos altamente eficiente, que os consultores de negócios patrocinados pelo governo consideraram o melhor que haviam visto e elaborou planos para eu vendê-lo em grande escala. Através de contatos fortuitos, consegui vender cerca de 15 unidades, o que entendi provou ser valioso e benéfico para seus usuários. Não obstante, eu pessoalmente fui com­plet­amente inútil em usar meu próprio pacote. Eu não me importei de enviar propa­ganda por correio, mas odiava e temia fazer ligações telefônicas não solicitadas. Isso é porque eu sou desajeitado na conversa. Lembro-me bem da resposta tele­fônica que recebi de uma vasta enviada de correio à associação comercial do condado de uma brochura projetada e produzida para mim por uma empresa de design profissional. Eu estava com a língua presa e confusa, consequentemente perdendo o contato e qualquer negócio em potencial. Eu também odiava e temia encontros cara a cara nos quais deveria tentar vender meus produtos e serviços para pessoas de negócios. Então, meus negócios gradualmente acabaram, cheg­ando a um ponto em que tive de encerrá-lo em abril de 1991, aos 49 anos, e cad­astrei como desempregado. Nunca mais recebi remuneração pelo meu trabalho.

Internamente, durante toda a minha vida, fui atormentado regularmente repetindo cenários mentais de horríveis eventos passados. Eles podem ser acionados a qualquer momento, esteja na cama à noite ou durante o dia, mas são invariáveis quando estou sozinho. Eles se relacionam principalmente com injustiças que sofri de pessoas com autoridade, que ainda me perturbam porque não há nada para detê-las, ou algo semelhante, acontecendo novamente. Eles não são sonhos. Eles são devastadoramente vívidos, verdadeiros e precisos. Não obstante, eles têm um lado positivo, pois penso que o mesmo mecanismo, que os causa, também me con­fere uma propensão ao pensamento lateral e à imaginação construtiva a partir das quais novas idéias nascem e se desenvolvem.

O Que Eu Poderia Fazer?

Uma pessoa pode mudar de caráter. Por exemplo, ela pode superar a desonesti­dade e, por pura força de vontade, tornar-se honesta. Não é assim com a per­sonalidade. O tipo de personalidade de uma pessoa é o que ela nasce. Pode ser influenciada de alguma maneira por seu ambiente social ou familiar formativa. Não penso que a ciência esteja realmente certa disso. Mas, de maneira figurada, pode-se dizer que é assim que o cérebro dela está construido. E isso é um fato consum­ado: é algo que ela não pode fazer nada sobre mudar.

Não obstante, uma pessoa com um tipo de personalidade específica pode desem­penhar o papel de uma pessoa fictícia com um tipo de personalidade diferente. Por exemplo, um nerd introvertido pode desempenhar o papel de um vendedor extro­vertido. Eu fiz isso. E funcionou até certo ponto. Mas sempre achei difícil e estres­sante, porque sabia que era uma farsa, que achei desagradável. No entanto, ao longo do que deveria ter sido minha vida profissional, desempenhei esse papel. Mas simplesmente não fui eu. Consequentemente, quando cheguei à idade de me aposentar, parei, revertendo instantaneamente para o que realmente sou. Eu tornei-me me mesmo novamente.

Desde quando entrei como desempregado, em abril de 1991, fui obrigado a pro­curar trabalho durante todos os dias úteis. Fiz isso diligentemente até abril de 1997. Durante esses 6 anos, pensamentos passaram pela minha mente sobre por que as coisas eram do jeito que eram para mim. Eu estava vivendo uma vida des­perdiçada. Eu sabia até então que não tinha chance de encontrar trabalho. Então eu decidi me dar um emprego. Eu sabia que não podia administrar um negócio, então decidi criar e buscar um projeto pessoal para tentar entender a minha vida. Eu comecei a escrever. Meu primeiro trabalho escrito foi um pequeno poema, que me veio à mente como uma torrente de palavras que caíram em rima. Nos 22½ anos seguintes, com o poema como base, escrevi um livro acompanhado de mais de 300 artigos de nota de rodapé, que juntos retornaram uma contagem de mais de um milhão de palavras.

Em abril de 1998, montei o que havia escrito até agora em um site. Esse site, intit­ulado Terra, Justiça Social, O Universo, Percepção e Sobrevivência, está agora [em dezembro de 2019] completo. De 1997 a 2004, continuei minha tarefa diária de procurar trabalho, conforme necessário. No entanto, agora vendo essa como uma tarefa fútil, dei a ele apenas o tempo e esforço mínimos necessários e suficientes para satisfazer os requisitos burocráticos para me qualificar para o recebimento do benefício da seguridade social. Finalmente, frustrado e exausto com a minha vida draconiana no Reino Unido, emigrou para o Brasil em 2004, onde continuei trabalh­ando em tempo integral na redação, sob o apoio infalível da minha companheira.

Então, O Que Eu Sou?

No final de 2019, uma enxurrada de artigos curtos apareceu na Web sobre a sínd­rome de Asperger. Ao ler estes artigos, muitos sinos começaram a tocar sobre toda a minha vida e os problemas que eu tinha para interagir com as pessoas e formando relacionamentos duradouros. Queria descobrir se tinha a síndrome de Asperger, mas com uma renda de apenas 92,49 libras por semana, não consegui diagnosticar com um psicólogo ou neurologista profissional. Minha única opção era buscar testes psicológicos gratuitos de bateria na Web. Encontrei vários que pareciam ter boa credibilidade e peguei três deles.

Esses testes determinaram que eu tenho entre 67% e 87% do neurodiverso, o que, pelo que posso captar, significa que tenho uma forma de autismo de alta função, anteriormente chamada de síndrome de Asperger. Meu quociente de espectro do autismo [AQ] do teste on-line disponibilizado pelo Autism Research Center em Cambridge é 44. Essa descoberta foi um choque pessoal na época, embora tenha me dado uma grande sensação de alívio de que agora eu tinha algum tipo de "desculpa" para meus fracassos ao longo da vida academicamente, nos negócios e nas relações sociais. Não sei muito bem onde tudo isso me deixa ou para onde vou daqui, se for onde for.

Os profissionais admitem que a síndrome de Asperger não é uma doença. No en­tanto, eles se referem a ela como uma deficiência do desenvolvimento. Isso implica que algum aspecto da composição de uma pessoa com síndrome de Asperger não se desenvolveu correta ou completamente. Portanto, qualquer pessoa com um tipo de personalidade que veja o mundo de maneira diferente da maneira como o mainstream atual o vê deve ser de alguma forma deficiente. É o mesmo que um capitalista vê um socialista como deficiente e vice-versa.

Não obstante, quando olho honestamente para mim mesmo, o termo deficiência não descreve adequadamente minha diferença em relação aos outros. Não me sinto deficiente: me sinto incompatível, o que definitivamente não é a mesma coisa. E esse sentimento de incompatibilidade está nas opções sufocantemente estreitas, que me são impiedosamente impostas pela sociedade em que sou obrig­ado a viver, sob a ameaça da violência do Estado, que certamente seria desen­cadeada para mim, se eu tentasse seguir o que eu vejo claramente como o cam­inho moralmente correto.

Por outro lado, existe algo que poderia ser chamado de 'deficiência'. Mas isso não faz parte de mim: pertence ao meu relacionamento com os outros. Tem a ver com a natureza do meu relacionamento com a sociedade: especificamente com o tipo de sociedade em que nasci e cresci. Assim, vejo a síndrome de Asperger como a inevitável deficiência no relacionamento entre qualquer pessoa, com o que eu chamaria de tipo de personalidade de Asperger e o atual zeitgeist socioeconômico predominante.

Assim, a personalidade de Asperger é simplesmente um tipo de personalidade, que por acaso é amplamente incompatível com a atual ordem social ocidental baseada no capitalismo neoliberal do mercado livre. Não obstante, algumas pessoas com esse tipo de personalidade saem-se bem no atual sistema socioeconômico. Eles se enquadram em trabalhos de nicho, que prosperam em suas habilidades e modo de ser particulares. Mas isso é inevitavelmente resultado de uma ocorrência fortuita dentro de uma loteria natural orquestrada pelo comportamento complexo-dinâmico de uma socioeconomia com a vasta população de uma nação moderna. Mas se, por mero acaso, você não se encontrar no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas nas circunstâncias certas: você perde. É assim no sist­ema neoliberal de livre mercado. Ele concede saúde, riqueza e felicidade ao exigente, relegando os man­sos à miséria e à fome, com uma maioria média em um caldeirão agitado de in­certeza econômica.

Uma socioeconomia, governada por nada além das leis naturais da complexa-dinâmicas, tem dentes e garras sanguineas. Isso torna inútil o governo, a nação e a civil­ização. É assim que deve ser? Eu penso que não. O homem autoconsciente tem uma consciência que, na ausência de doutrinação por regimes políticos tirânicos, exigiria que ele fizesse amizade e cuidasse de seus companheiros. É por esse mot­ivo, que existe uma ordem social, regulada por lei, para compensar os infortúnios do acaso natural, ajudando aqueles que, por nenhuma culpa deles mesmos, vêem-se carentes das necessidades da vida.

O sistema capitalista neoliberal do mercado livre é uma barreira, que separa o hom­em comum de seus meios naturais de transformar seu trabalho em suas necessi­dades de vida. Consequentemente, na maioria das vezes, o homem comum pode transformar seu trabalho em suas necessidades da vida apenas através de um empregador. Um empregador tem o poder de decidir se ele irá ou não empregar uma pessoa. Assim, coletivamente, os empregadores têm o poder de decidir se uma pessoa, em particular, deve ou não transformar seu trabalho em suas necessi­dades de vida.

Cada vez mais os empregadores usam testes de personalidade para filtrar todos os candidatos, que não possuem o que os psicólogos determinam como tipos ideais de personalidade. Eu não selecionei, por vontade livre, o tipo de personalidade com que a natureza dotou-me. Consequentemente, não é minha culpa que minha per­sonalidade seja incompatível com o estreito modus operandi da socioeconomia, em que nasci e sou obrigado a viver. Fui nascido com o que os psicólogos entendem ser o tipo de personalidade errada para um funcion­ário. Então, é justo e equitativo, que me devessem ser negados à força os meios, para transformar meu trabalho em minhas necessidades da vida? Eu penso que não.

Inserção: Os empregadores do setor de TI também usam, cada vez mais, testes de aptidão, para filtrar os candidatos a funcionários, que os psicólogos determinam não estar aptos para a programação de com­putadores. Eu era um programador de mérito estabelecido 10 anos antes desses testes entrarem em voga. Posteriormente, quando me inscrevi para novos empregos, tive que fazer um teste de aptidão. Minha pontu­ação média nunca foi superior a 5%. Eu nunca pude ver nenhuma con­exão entre esses testes criados por psicólogos e a programação de com­putadores. Essa é uma das razões pelas quais eu comecei o meu próprio negócio. Os clientes não pretendiam apresentar-me testes de aptidão tão ridículos.

Um rei carinhoso ou um ditador benigno governa seu povo com eqüidade. Um rei mau ou um ditador tirânico escraviza seu povo na miséria. Se os cidadãos de uma democracia votarem em políticas, que atendam às suas próprias ambições ego­ístas, sem se preocupar com os efeitos colaterais catastróficos, que essas políticas podem ter sobre alguns de seus concidadãos, a disparidade reinará. Para que a democracia seja justa e benigna, cada um deve votar em políticas, que ele real­mente acredita, que criarão condições, que sejam justas e satisfatórias para todos. E 1 em cada 70 pessoas, dentro da classe chamada 'todo mundo', é como eu. Claramente, as pessoas em geral estão votando egoisticamente; não socialmente.

Inserção: Eu penso, que a figura acima de 1 em 70 refere-se a qualquer pessoa no espectro autista. As estimativas parecem volúveis, mas algu­mas fontes colocam a proporção de pessoas em todo o mundo com síndrome de Asperger em cerca de meio por cento. Parece também que essa proporção está aumentando notavelmente com o tempo. A causa pode ser melhorias no ajuste fino dos testes de diagnóstico. Não ob­stante suspeito, que a causa dominante é mais provável, que seja a mud­ança constante, mas implacável para a direita da ordem socio­econômica existente, deixando uma proporção cada vez maior da popul­ação fora do seu envelope de compatibilidade cada vez mais estreito. A sociedade está tornando-se cada vez mais exclusiva; não apenas para aspies, mas também para outros.

No entanto, não é o sistema político, como tal, que os leva a votar dessa maneira. O povo pode sair-se bem ou mal, independentemente de ser governado por decreto ou democracia. A culpa é do caráter egoísta de quem governa, seja o rei ou o povo. Sob a moderna democracia ocidental, esse caráter egoísta é incorpor­ado à mente do público pela elite industrial, que emprega os meios de comuni­cação modernos para alimentar constantemente o público com suas próprias atitudes egoístas, transformando democracia em oligarquia. E é essa oligarquia, que possui e controla os recursos do planeta, dando somente para aqueles dos quais ela atual­mente precisa, os meios para transformar seu trabalho em suas necessidades da vida. Essa oligarquia possui e controla o acesso à árvore da vida, que ela usa para seus próprios fins egoístas.

Claramente, o que é necessário é uma nova ordem social de inclusão total, na qual pessoas como eu, um pouco diferentes, — como todo mundo — saiam-se bem, com a oportunidade de contribuir de acordo com suas habilidades consideráveis. Não pode ser nem capitalista nem socialista. É o assunto do meu livro.


© 30 março 2020 Robert John Morton