Chapter 11: How They Govern

Nota de rodapé: Morando no Brasil

Para mim, o Brasil foi um choque de cultura. Eu não achei fácil. Mesmo comparada à sociedade britânica, achei-a autoritária e atrasada na escala do desenvolvimento humano. O ambiente em que vivi dia a dia, foi, para dizer o mínimo, inesperadamente estressante. [PDF] [English]

Território8,515,767km2
População210,147,125indivíduos
Por Pessoa0·24677416km2
Por Pessoa4·052288129hectares
Por Família416·209152516hectares
Por Família624·313728774hectares
O Brasil tem um território maravilhoso. É muito grande, sendo um pouco maior que os 48 estados contíguos dos EUA. Em sua maior parte, é quase perman­ent­emente banhado pelo que eu cham­aria de uma clima benig­na de verão. Seu solo é rico e fértil. A estação de cresci­mento é quase contínua. Você pode plantar quase tudo e vai dar bons frutos.

Como pode ser visto na tabela acima, existem pouco mais de 4 hectares dessa terra maravilhosa por pessoa [adulto, adolescente, criança, bebê] no Brasil. Assim, uma família de 4 pessoas [pai, mãe e dois filhos] poderia ter pouco mais de 16 hectares de terra. Uma família mediana de várias gerações de seis pessoas [pai, mãe, dois filhos e dois avós] teria 24 hectares de terra.

A quantidade média de terra cultivada por pessoa no mundo é de cerca de 2.400 metros quadrados. Isso fornece comida suficiente para todos. O fato de alguns terem superabundância enquanto outros morrem de fome não é um problema sistêmico: é um problema de distribuição criado pela política. Os 2.400 m² de terra cultivada necessários ao sustento de um ser humano representam apenas 6% da quantidade de terra por pessoa no Brasil.

Em muitas partes do Brasil existe uma excelente lei que permite ao proprietário cultivar apenas até 40% de suas terras, deixando os 60% restantes para florestas naturais. Claro, a parte da floresta pode ser manejada de forma sustentável para a produção de madeira. Mesmo assim, a quantidade de terra por pessoa que deve ser cultivada para prover a alimentação dessa pessoa ainda é apenas 15% do que ela pode cultivar. Se, portanto, alocássemos apenas 1,6 hectares por pessoa [9,6 hectares por família mediana de 6 pessoas], isso deixaria 4,6 hectares por pessoa [60% da terra disponível] para uso público e outros. Mais do que razoável, eu acho. E todos poderiam viver generosamente em um ambiente natural agradável.

Com educação de alta qualidade universalmente distribuída, as pessoas em suas cotas de terra poderiam eventualmente desenvolver habilidades intelectuais e técnicas para produzir tudo o que uma civilização moderna e avançada poderia desejar: infraestrutura de comunicação distribuída cujos nós são operados e mantidos por cada proprietário de terra, em pequena escala avançada produção de alimentos e matérias-primas com máquinas projetadas especificamente para esse fim, confiança da comunidade, pessoas felizes e satisfeitas com tempo para buscar coisas além da mera sobrevivência econômica. Além disso, uma socioeconomia distribuída, que também está bem interconectada, é muito menos vulnerável a ameaças externas — sejam econômicas ou militares.

Mas este não é o Brasil que vejo. Em vez disso, ao que parece, praticamente todas as terras são propriedade de barões [latifundiários], que implantam suas vastas propriedades para cultivar safras comerciais para exportação, enquanto dois terços da população brasileira são empurrados para margens indesejáveis para viver em favelas prontas precariamente em encostas de montanhas perigosas e instáveis que são sujeitas a deslizamentos de terra e inundações durante as chuvas pesadas onipresentes. Lá, pobreza, fome e violência reinam enquanto as pessoas sobre­vivem suas vidas encurtadas. E a 'economia' cresce.

Nas últimas décadas, para fornecer as engrenagens técnicas e administrativas para esta economia, surgiu uma nova classe média que agora vive vidas mais ricas, como pequenas piranhas, dentro de um caldeirão econômico agitado de incerteza perpétua. Ao contrário de suas contrapartes com suas caixas improvisadas de tijolos com vazamentos das favelas, esses novos ricos tendem a viver em prédios de condomínios altos, exibindo a característica universal onipresente da "atitude merdosa de classe média". Isso contrasta fortemente com os habitantes relativa­mente mais pobres do interior [O Grande Sertão], que parecem ter uma atitude agradável e inclusiva para com todos.

O que segue relata algumas de minhas observações sobre minha vida cotidiana enquanto morava no Brasil.

Trânsito Brasileiro

Pensei que o comportamento do tráfego no Reino Unido fosse o pior possível. Ou seja, até eu ir morar em Belo Horizonte-MG, Brasil. Lá, você tem que aprender um jogo de bola totalmente novo e rápido. A primeira coisa é que os carros não param nas passadeiras para permitir a passagem de pedestres. Se você espera que eles façam isso, você será atropelado: garantido. Uma passagem em zebra apenas indica onde você tem mais probabilidade de conseguir atravessar a estrada ileso, desde que espere até que não haja tráfego e atravesse rapidamente antes que um carro saia gritando em alta velocidade e acerte você.

Também não pense que é seguro atravessar a rua nos semáforos quando o semá­foro verde para pedestres "vá" (o homenzinho verde que caminha) estiver aceso. Os carros vão virar à direita no vermelho e te espancar. Quase fui morto assim, pouco depois de chegar lá. Os motoristas não esperam que os pedestres passem na frente deles em nenhuma circunstância. Você pode atravessar na frente do tráfego que está esperando em um semáforo vermelho. No entanto, a razão pela qual eles param é para evitar bater em outros veículos que passam na frente deles em um sinal verde. Se não houver tráfego cruzando seu caminho, eles provavel­mente entrarão no vermelho e qualquer travessia de pedestres em frente será evitada. Para eles, o pedestre não deveria estar lá.

Mas talvez o motorista não possa ser culpado por tudo. As autoridades de trânsito também são negligentes. Certa vez, enquanto dirigia pelo centro da cidade, vi pedestres de repente começarem a cruzar a rua à minha frente. Não vi nenhum semáforo me dizendo para parar. No entanto, uma mulher atravessando a rua apontou para um semáforo de passagem para pedestres que mostrava o homen­zinho verde caminhando. Eles estavam perfeitamente corretos em cruzar na frente do meu carro. Espantado com isso, voltei ao mesmo lugar; desta vez a pé, tendo apanhado o autocarro para o centro. Eu olhei longe nas proximidades desta faixa de pedestres controlada. Não havia sinais de trânsito para controlar o tráfego. Não é como se houvesse um sinal de trânsito que não estava funcionando. Simples­mente não havia semáforos instalados para a direção da estrada. Mais tarde, soube que o tráfego rodoviário relevante deveria ser controlado por um semáforo a mais de 200 metros de distância, supondo-se quanto tempo levaria para um carro cruzar o enorme cruzamento de 200 metros. Os engenheiros de tráfego simplesmente não haviam considerado as ramificações de filas de tráfego lento e lento. Ei ho!

Outro truque frequentemente usado pelos motoristas brasileiros é seguir na direção errada em uma rua de mão única. Eu tenho visto isso com muita fre­quência. Freqüentemente, isso é feito por moradores que sabem muito bem que a rua é apenas de mão única, mas é um atalho conveniente para eles. Outros simplesmente não concordam que deveria ser uma rua de mão única e, portanto, ignoram o fato de que foi designada pela autoridade de trânsito. Tudo isso está dentro de uma cidade, aliás! Os motoristas estranhos à localidade podem não perceber que a rua é de mão única. Os sinais de trânsito são do tipo minúsculo dos Estados Unidos e é mais provável que tenham sido alvejados há muito tempo pelo sol. Portanto, não há nenhuma seta visível no sinal, o que o torna completamente ambíguo.

Ignorar as restrições de mão única pelos motoristas é extremamente perigoso para os pedestres que, sabendo que se trata de uma via de mão única, olharão apenas para a direção permitida para o tráfego de aproximação antes de atravessar a estrada. É sempre vital olhar para os dois lados. Os pedestres também têm o hábito de caminhar na estrada quando o pavimento fica intransitável. Em uma rua de mão única, eles entrarão na estrada sem olhar na direção proibida para o trá­fego. Eu também quase fui derrotado ao fazer isso quando não ouvi a aproximação de um carro viajando contra a direção permitida.

Calçadas Brasileiras

Utterly impassable pavements in the area where I lived in Brazil. Mas por que andar na estrada afinal? Por que não con­tinuar na calçada? Acho que a imagem ao lado ilustra por que as pessoas andam na estrada. Não consigo neg­ociar alguns desses pavimentos. Tenho pena de qualquer pessoa em uma cadeira de rodas! Apesar disso, os car­ros passam agressivamente perto dos pedestres que andam na estrada. A mensagem deles é que, como ped­estre, não devo estar na estrada. A estrada é para car­ros. Talvez eu deva pegar alguma corda de escalada e pitons e ficar no asfalto. A autoridade local deve manter as calçadas, mas não o faz. O dinheiro obviamente vai para outro lugar.

Esteja ciente de que as etapas que você pode ver nessas duas fotos não são etapas de tamanho normal: elas são enormes. Uma pessoa mais velha certamente não conseguiria levantá-los sem a ajuda de outra pessoa. Para uma cadeira de rodas para inválidos ou para um carrinho de bebê, são totalmente impossíveis. A estrada é a única opção.

Pavements that are nothing but car entry ramps. Portanto, cabe aos moradores manter as calçadas públicas em frente às suas moradias. E os chefes de família fazem isso para se adequarem: não o pedestre que passa. Os moradores constroem rampas de acesso convenientes para seus veíc­ulos do lado de fora, na calçada, para evitar o uso de espaço dentro de seus lotes particulares. Se você clicar na imagem para obter uma visão ampla, verá que o morador fez o pavimento muito íngreme para deixar a rampa de entrada do veíc­ulo o mais nivelada possível.

Note que a rampa de acesso do vizinho deste morador, mais acima, é mais de um metro acima, criando um degrau impossível para um pedestre. O pavimento inclin­ado em primeiro plano é impossível de escalar com a chuva. É muito escorregadio. Essas duas ilustrações são inofensivas em comparação com outras que encontrei no percurso de caminhada que usava para fazer exercícios três vezes por semana. Mas essas são áreas onde não queria levar minha câmera. Alguns desses pavi­mentos mantidos pelo proprietário são extremamente irregulares e cheios de sulcos, o que torna extremamente fácil tropeçar e cair, como costumava fazer quando cheguei ao Brasil.

Rodovias Brasileiras

De longe, a estrada mais perigosa, pela qual pessoalmente já dirigi, foi, sem sombra de dúvida, os 300 quilômetros da BR135 entre seu entroncamento com a BR040 em J.K. Curvelo ao sul [19°09'13·96"S 44°31'55·10"O] e arredores de Montes Claros ao norte [16°46'33·37"S 43°50'23·59"O]. É uma campanha de arre­piar os cabelos. A estrada está cheia de grandes caminhões pesados. Pesado é a palavra certa. A maioria deles está claramente sobrecarregada. E suas veloci­dades? Eles vão muito mais rápido do que ouso no meu carro. Eu dirigi essa rota 5 vezes. Nunca mais. A partir daí peguei o ônibus noturno.

Sempre vi animais mortos na beira da estrada, então decidi durante uma viagem que os contaria. Ao longo do trecho de 300 km, contei um cavalo morto e quatro cães mortos. Tudo atropelado. Isso pode não parecer muito. Porém, é preciso lem­b­rar que, nessa região tropical, o urubu vai derrubar um cachorro morto em 20 minutos, sem deixar nada. Eles aparecem do nada em massa e apenas desfilam. Duvido que um cavalo morto durasse muito mais. Simplesmente haveria mais urubus comendo. Essa rápida eliminação de animais mortos significa que qualquer animal morto que se veja na estrada não está lá por muito tempo. Provavelmente apenas uma questão de minutos. Então, eu me pergunto, quantos cães e cavalos por dia os caminhões despacham?

Os humanos também são vítimas frequentes. No entanto, estou surpreso de saber por que não há mais. Não me lembro de ter percorrido a rota uma vez sem ter encontrado pelo menos um acidente de caminhão grave. Isso geralmente resulta em pelo menos um caminhão com seu enorme trailer na lateral e com a produção espalhada em ambas as pistas. Imagino que os motoristas geralmente morram. Que assim seja. No entanto, o que para mim é totalmente inaceitável é quando esses caminhoneiros vaqueiros irresponsáveis matam ocupantes indefesos de car­ros e pedestres.

Meu encontro mais próximo com a morte foi quando me aproximava de uma curva cega. Estava com os faróis acesos, como sempre, mesmo durante o dia naquela estrada. O tráfego que se aproximava era um trem de caminhões pesados. De repente, um dos monstros apareceu na curva do meu lado da estrada, com os faróis acesos. Ele estava ultrapassando uma série de outros caminhões na curva cega do lado errado da linha central dupla. Eu pisquei minhas luzes no feixe principal repetidamente. Ele piscou de volta e soou sua buzina. Ele não iria parar ou recuar. Ele estava vindo, quer eu estivesse lá ou não. Minha única opção era cair na beira da estrada o mais rápido possível. A pista de terra ao lado é frequente­mente ocupada por pedestres e carroças de mulas. Felizmente, não havia nenhum lá na época. Esse tipo de comportamento é típico. É uma regra não escrita que, nesta situação, cabe ao veículo em minha posição sair da estrada — desde que haja espaço na lateral para fazê-lo.

Eu havia aprendido bem a primeira regra do tránsito no Brasil: os poderosos estão sempre certos — em todas as circunstâncias. Esqueça os Regulamentos do Trânsito oficiais. Isso é apenas material escrito em um livro. Não é realidade.

Outra situação perigosa foi quando eu estava dirigindo no trecho relativamente tranquilo da BR135 ao norte de Montes Claros. Eu estava dirigindo nos 80km/h estipulados ao longo de um trecho reto e claro quando, de repente, sem aviso, uma picape Chevy velha e surrada veio direto de um portão de campo para a estrada a apenas 20 metros ou mais à frente de mim. Pisei no freio e consegui parar a tempo de evitar entrar na traseira da pick-up. Mais tarde, ultrapassei a pick-up e olhei para o motorista. Ele era um menino. Ele não devia ter mais de 12 anos.

Decidi que, se eu fosse o governador do Estado, decretaria que todos os acidentes rodoviários na BR135 seriam simplesmente varridos para a beira da estrada e deixados lá como depoimentos mudos. Então, talvez, um dia, a mensagem possa despontar em alguns desses caminhoneiros brasileiros psicopatas. Quanto a mim, relutantemente aceitei que meu sonho de dirigir por toda parte para ver as difer­entes partes do Brasil era totalmente perigoso e totalmente impraticável. Vou viajar de carro para quando for visitar outros países.

Estacionamento Irrisório

Car parked across the pavement. No Brasil, as pessoas freqüentemente estacionam seus carros não apenas na calçada, mas também em frente a ela. A mulher sem consideração, que dirige o carro mostrado à esquerda, sempre esta­ciona assim. Os pedestres, incluindo mulheres com crianças em carrinhos de bebê, precisam con­tornar o carro e entrar na estrada, onde o tráfego rápido entra em uma esquina cerca de 15 metros atrás da câmera. Essa maneira imprudente de estacionar está longe de ser atípica. Abaixo está outro, do outro lado da rua deste.

Another parked car blocking the pavement.

Ruído Inimaginável

No Brasil, o problema do ruído é ainda pior do que no Reino Unido. No bloco de apartamentos do condomínio onde moro, existe uma sala comum chamada Salão de Festas. A festa, como observei, é uma festa brasileira barulhenta que dura a noite toda. Qualquer proprietário de apartamento pode reservar o quarto para uma festa. Sou levado a crer que, no Brasil, existe uma lei que estipula que as pessoas podem fazer barulho de festa até as 22 horas, a partir do qual todos têm direito ao silêncio. Mas, infelizmente, a lei são simplesmente palavras escritas em um livro. Não tem relevância para a realidade. Os membros dominantes do condomínio votaram que esta lei era "impraticável" e não teria força dentro do prédio ou em seu terreno.

Os apartamentos desses membros dominantes do condomínio ficam do lado da rua do prédio. O Salão de Festas fica do outro lado do prédio onde fica meu apartamento. Normalmente uma festa acontece no quintal, logo abaixo das janelas dos quartos dos apartamentos do meu lado do prédio. O barulho das festas é canalizado para cima entre as paredes do nosso prédio e o próximo, enchendo os quartos dos apartamentos do meu lado do prédio com um nível intolerável de som intenso. A suspensão das "impraticáveis" Leis Federais, Estaduais e Municipais de silêncio faz com que as festas continuem a produzir um barulho cada vez maior até depois das 04h30 nas manhãs de domingo, à medida que os participantes consomem cada vez mais álcool.

Por fim, resolvemos que, para poder ter um sono bem merecido no fim de semana, teríamos que encontrar outro lugar para dormir nas noites de sábado. Então é isso que fazemos sempre que há festa, coisa da qual só tomamos conhecimento quando vemos as mesas e cadeiras sendo colocadas no quintal. Simplesmente temos que aceitar que nosso apartamento não é nosso nas noites de sábado.

Existe também uma casa vizinha habitada por várias gerações da mesma família. Eles também têm festas barulhentas. No entanto, seu nível de ruído não é tão alto e eles sempre ficam em silêncio por volta das 23h30, no máximo. Consequente­mente, no que diz respeito às festas, elas não são tanto um problema. Ao contrário das festas em nosso próprio prédio, as festas dos vizinhos não criam a confusão devastadora que nos tira de nossa casa nas noites de sábado.

Devastatingly noisy high-powered water jet in use in a residential environment. Suas festas podem não ser tão devastadoras, mas seu barulho industrial certamente é. Eles freqü­ente­mente usam jatos de água de alta potência para limpar a tela de seda das placas de vidro, que usam em algum tipo de processo de im­pressão. O jato é impulsionado por uma bomba elétrica de alta velocidade barulhenta. Durante este processo, é impossível manter uma conversa na nossa cozinha com todas as janelas fechadas. Eles também têm serras elétricas que soam como se estivessem cortando cerâmica ou vidro e amo­lando rodas, tudo isso fazendo um barulho invas­ivo dentro de nosso prédio. São de uso regular no dia a dia em algum tipo de processo industrial: não são simplesmente projetos caseiros de DIY. E esta deveria ser uma área residencial, o que quer que isso signifique no Brasil.

Alarmes Ridiculamente Altos

Block of flats with a door alarm of utterly ridiculous power, which sounds at all hours of the day and night. No entanto, existe outra fonte de ruído que nos desperta em todos os tipos de momentos aleat­órios, especialmente durante as primeiras horas. É o som intenso de um alarme no bloco de ap­ar­tamentos adjacente mostrado à esquerda. O préd­io do nosso condomínio pode ser visto ao fundo, à direita da foto. O barulho deste alarme é imenso e devastador. Nenhuma quantidade de tempo seria suficiente para uma pessoa se acostumar com isso e dormir durante a noite. É simplesmente muito alto. E é colocado diretamente em frente às janel­as dos quartos do nosso lado do nosso prédio. Produz um ruído estridente poderoso que só posso descrever melhor como um grito agudo. É um volume que eu esperaria apenas para avisos de ataque aéreo ou tornado. Ainda assim, soa toda vez que alguém deixa a porta da frente daquele prédio aberta além de um curto prazo.

Como resultado, é impossível manter a janela do quarto aberta, mesmo em noites tropicais quentes e úmidas. Sem a janela bem fechada, o som daquele alarme às três da manhã seria o suficiente para desencadear um ataque cardíaco. Quem instalou esse alarme é claramente um sociopata mentalmente perturbado.

Produção Toda a Noite

Felizmente, o ruído industrial dos vizinhos adjacentes só ocorre durante o dia. Não é assim com os habitantes do apartamento abaixo de nós. Em um prédio suposta­mente residencial de classe média, os moradores do apartamento abaixo de nós operam algum tipo de processo de produção industrial. Eles têm o que são ob­via­mente máquinas não domésticas operando, geralmente muito tarde da noite (isto é, depois da meia-noite). A máquina mais dominante emite um ruído surdo regular de cerca de duas batidas por segundo, como uma máquina de lavar muito antiqu­ada com um agitador reverso, mas muito mais alto. Além disso, a máquina começa lentamente em cerca de duas batidas por segundo e gradualmente, ao longo do período de seu ciclo, acelera até cerca de duas vezes essa taxa. Não acho que isso seja característico de uma máquina de lavar doméstica. Também é muito alto e vibratório.

Além do maquinário, freqüentemente alguém parece estar trabalhando em uma bancada no quarto abaixo do nosso. Além disso, o fazem a qualquer hora da noite. Às vezes, a noite inteira. Eles batem com um martelo, como um sapateiro enfiando pregos nos sapatos. Eles também têm um rádio alto o suficiente para que possam ouvir acima do barulho de suas máquinas. Correram boatos de que eles faziam ursinhos de pelúcia, mas não tenho confirmação disso. O que quer que façam, é muito perturbador para o nosso sono. Frequentemente somos acordados nas prim­eiras horas da manhã com o som de um martelo batendo e o barulho de ferra­mentas e recipientes batendo.

A minha mulher, que é Analista Judiciária, escreveu uma carta formal ao presidente do condomínio (O Sindico) queixando-se do barulho da noite. Ele veio ao nosso apartamento e conversou conosco. Ele adotou uma atitude muito cínica em relação à nossa reclamação e não fez nada. A partir daí, desrespeitosamente nos referimos a ele como o Sinico (o cínico). O barulho noturno continua e é mais intenso em novembro e dezembro. Felizmente, parece que temos uma trégua parcial durante os primeiros meses de um novo ano.

O ruído consiste principalmente em constantes marteladas, remendos, batidas e pancadas durante toda a noite, com o ocasional som alto de móveis ou itens pesados sendo empurrados contra um piso de cerâmica. Isso é pontuado pelo som da água fluindo em alta pressão através de canos, como se uma máquina estivesse enchendo e esvaziando durante a noite. Todos esses remendos acordam nosso cachorro, que compreensivelmente começa a latir furiosamente com esses sons fora do lugar durante a calada da noite. Tenho que ir acalmar o cachorro. Isso me sugere que, em nosso chamado edifício residencial, o apartamento residencial das pessoas que moram abaixo de nós está sendo usado como uma espécie de fábrica que funciona a noite toda.

Como pano de fundo para tudo isso, ouvimos um rádio em alto volume constante­mente passando pela parede e pela janela da 01h30 às 06h00 todos os dias da semana à noite. Normalmente, só conseguimos dormir das 21:00 às 02:30. Acord­amos com o cérebro desgastado e incapazes de nos engajarmos efetivamente em um trabalho mental criativo durante o dia. Tentei resolver o problema trabalhando à noite e dormindo durante o dia. Mas isso não funcionou para mim porque meu trabalho requer pensamento criativo, o que só posso fazer durante o dia. Precis­amos de alguma autoridade externa competente para fazer uma inspeção geral do apartamento abaixo de nós para ver o que realmente está acontecendo lá.

O trauma desta situação se reflete em uma nota que fiz para mim mesma em meu diário em 19 de março de 2020:

Mais uma noite sem dormir devido às batidas e máquinas girando e ruído da água do apartamento abaixo das 03h35 às 05h20. O barulho contin­uou das 07h00 até as 08h30. Precisamos sair desta favela. Não consigo me concentrar hoje. Desisto! Acima de 12 anos de noites perturbadas me afetaram. Este apartamento é realmente inabitável.

Uma noite, por volta das 3h30, desci para a área que circunda nosso prédio e des­cobri que o barulho do rádio vinha, na verdade, do apartamento dois andares abaixo de nós, ou seja, um andar abaixo do apartamento "fábrica".

Reconstrução Infinita

O prédio do condomínio é relativamente novo. Praticamente todos os seus ocupan­tes são os primeiros a morar em seus respectivos apartamentos. No entanto, logo após a mudança, um após o outro decidiu "reformar" ou remodelar completamente o interior de seus apartamentos. Por que eles querem fazer isso, eu não consigo entender. Os apartamentos são projetados por arquitetos e têm o que para mim é um layout ideal. Apesar disso, cada proprietário de apartamento, por sua vez, contrata uma empreiteira para remodelar completamente o interior, movendo as paredes, alterando o tamanho dos quartos, integrando a varanda com a sala prin­cipal, quebrando um lindo novo piso de cerâmica e substituindo-o com mármore ou granito polido. O resultado parece chique, mas percebo que eles logo percebem que o novo layout é um tanto estranho e pouco prático.

Como escritor, trabalho em casa. A maioria dos outros proprietários de aparta­mentos está fora o dia todo. Consequentemente, durante um período de 15 anos, tive que suportar, durante três meses de cada vez, as marteladas incessantes de esmagamento de pisos de cerâmica, reduzindo a espessura do concreto e fazendo furos. O edifício é construído em concreto armado com aço. Martelar em qualquer lugar é transmitido, de forma mais eficaz, para todos os outros apartamentos. O custo externalizado para mim, em tempo perdido, é provavelmente muito maior do que o custo de remodelagem para cada um dos proprietários. E tudo para quê? Essas pessoas obviamente têm mais dinheiro do que bom senso.

Na verdade, todo o distrito circundante ao longo dos 15 anos foi um canteiro de obras. Cada dia era coberto por um pano de fundo de betoneiras, brocas pneu­máticas, marteladas, cravação de estacas, serras de cerâmica, pedras de amolar. Tive que manter as janelas sempre fechadas. Então, mais ocasionalmente, o "silên­cio" do ruído da construção é quebrado por um carro com alto-falante estupida­mente superpotente anunciando algum produto irrelevante patético. Eu apenas tive que parar de trabalhar até que gradualmente desaparecesse na distância. Lembro que estávamos andando na rua certa manhã quando uma caminhonete, com uma torre eriçada de alto-falantes, passou por nós. O nível do som invocou literalmente a dor auditiva. Tivemos que colocar os dedos nos ouvidos. Claro, sem­pre há os adolescentes malucos, com potentes alto-falantes externos em suas velhas pick-ups, que dirigem pelas ruas de madrugada tocando rock alto. Mas eles são relativamente mansos.

A Maldição dos Helicópteros

Nuisance helicopter buzzing my apartment in Belo Horizonte-MG Mas tem mais. A pièce de résistance do ruído incô­modo é o helicóptero. Não há nada para competir com ele. Um antigo campo de aviação, no centro de nosso bairro residencial, tornou-se licenciado para operar helicópteros. Fica a pouco mais de um quilômetro do meu apartamento. Como resultado, 6 escolas de treinamento de pilotos de helicóptero foram abertas. Seus helicópteros voam baixo sob­re nosso apartamento. Eles fazem um ruído infer­nal, muito pior do que aeronaves de passageiros normais. Parece um cortador de grama gigante cortando a vegetação rasteira & shy; est ou um cortador de madeira moendo ossos. Eles também passam direto pela universidade. Na maioria dos dias, eles voam em torno de seu circuito o dia todo.

Felizmente, tenho meus fones de ouvido com cancelamento de ruído, que comprei no Canadá. Eles reduzem o ruído a quase nada. Para que eu possa me concentrar na minha escrita. No entanto, é irritante ter que usá-los o tempo todo e substituir a bateria a cada 35 horas. Mas tenho pena dos alunos da universidade. Durante as sessões da manhã e da tarde, um helicóptero passou a cada 30 segundos. Milhares de moradores reclamam. Talvez um dia, quando houver um acidente com a morte de moradores, suspendam os voos por um tempo.

É ABSOLUTAMENTE IMPOSSÍVEL EXAGERAR O RUÍDO TOTALMENTE DISRUPTIVO DOS HELICÓPTEROS. Eles são uma maldição. Eles tornam todo o ambiente im­possível para qualquer tipo de pensamento criativo. Mas, claramente, as autori­dades não dão a mínima para isso. O que é mais importante para eles é manter esses Biggles gung-ho de elite felizes, deixando-os livres para voar por aí em suas estúpidas máquinas de ruído. Finalmente, depois de queixas esmagadoras e muitos acidentes fatais de aeronaves leves na área urbana circundante, o campo de aviação de onde os helicópteros operavam foi fechado definitivamente.

Portanto, se seu trabalho requer pensamento criativo ou concentração mental durante a semana e você precisa relaxar e descontrair no fim de semana, o Brasil definitivamente não é o lugar para estar.

Novamente, acho que as pessoas devem ser livres para viver, trabalhar e construir como quiserem. Acho que cada um deve ser capaz de ter espaço adequado para fazê-lo sem perturbar os outros. Não obstante, dadas as restrições não naturais em que o capitalismo força a maioria de nós a viver, acho que cabe a cada um con­siderar — e acomodar — a paz de seus vizinhos.

Autoritarismo Mesquinho

Condominium apartment building where I lived in Brazil. O sentimento de egoísmo endêmico é intensi­fic­ado ao seu nível máximo quando as pessoas ficam amontoadas, cada vez mais apertadas, em blocos de apartamentos. Esse modo de vida exige um nível extra de autoridade mesquinha, ou seja, um condomínio. Em teoria, isso inclui todos os propri­et­ários de apartamentos no prédio, votando juntos no que eles honestamente acreditam ser o melhor para todos. Infelizmente, porém, não é isso que acontece. Uma situação específica ilustra o que significa. Eu moro em um apartamento, que é meu. É um dos 15 do edifício mostrado à direita. A manutenção dos aspectos comuns do edifício é administrada por um condomínio, que integra os proprietários dos apartamentos. A realidade, por­ém, é que o prédio é governado por uma cam­arilha, formada por menos da metade dos pro­pri­etários dos apartamentos. Eles organizam as cois­as da maneira que desejam, em alguns casos votando para derrubar leis federais e estaduais que consideram "impraticáveis" para o que dese­jam fazer.

O (supostamente eleito) presidente do condomínio comunica as reuniões do con­domínio por e-mail. Ele considera que todas as comunicações condominiais fora das reuniões oficiais serão por e-mail. Que azar se você não tiver um computador, ou se ele estiver com defeito ou se sua conexão com a Internet estiver desligada. As reuniões são agendadas sempre para horários em que não posso comparecer. Eu não sei sobre outros proprietários de apartamentos.

Em uma dessas reuniões, a camarilha discutiu sobre segurança e decidiu, com grande custo, instalar câmeras por todo o prédio e seus acessos. As imagens da câmera podem ser visualizadas por todos os proprietários de apartamentos por meio de seus computadores. Tenho 3 computadores, mais um laptop e um tablet. [A razão de eu ter tantos computadores é porque os computadores eram minha vida. Na época em que eu tinha emprego, era programador.] No entanto, o soft­ware de visualização da câmera, fornecido pelo fornecedor do sistema de câmera, é incompatível com todos eles.

Consegui, consegui abrir uma partição de disco no meu computador mais antigo (o laptop), no qual o Microsoft Windows XP ainda estava instalado. Baixei o software de visualização da câmera e consegui visualizar as imagens da câmera. A definição era tão pobre que seria impossível identificar alguém pelas imagens. Então, eles não podiam ser usados para pegar um ladrão.

O software de visualização foi escrito em Active-X, então sou grato por não ter absolutamente nenhum dado não pertencente ao sistema (ou privado) naquela partição do Windows XP. Quem sabe quais backdoors a empresa de segurança ou seu provedor de software colocam em seu código Active-X de código fechado? A regra é que, se eles podem, eles o farão. Não existe paranóia em relação à Tecno­logia da Informação, apenas ingenuidade. Tecnicamente, é possível para a empresa de segurança, seu fornecedor de software ou qualquer um de seus funcionários relevantes acessar quaisquer informações que possam ser armazenadas no com­putador de qualquer um dos proprietários de apartamentos que tenham este software de visualização de câmera Active-X instalado.

Além disso, qualquer funcionário da empresa de segurança, que administra as sen­has dos clientes, pode acessar as visualizações das câmeras. Esse funcionário tam­bém pode passar a senha de nosso prédio para qualquer outra pessoa, que poderá acessar nossas câmeras pela Internet da mesma forma que nós. Essa pessoa pode então levar o tempo que quiser para "examinar o baseado", vendo quem entra e sai e quando. Imensamente útil para um ladrão. Se eles puderem, eles o farão.

Sou aposentado e vivo com uma pequena pensão. Os ocupantes de alguns outros apartamentos não são exatamente ricos. No entanto, por causa das decisões tom­adas por uma minoria mais jovem e rica, todos nós temos que pagar valores iguais pela instalação e manutenção dessas câmeras e seu serviço contínuo. E tudo por um sistema que, na realidade, torna nossos apartamentos menos seguros e mais vulneráveis. Como o microcosmo do condomínio ilustra bem o macrocosmo da democracia nacional.

As reuniões do condomínio geralmente são assistidas apenas por membros da camarilha. Eu suspeito que a maioria dos outros proprietários de apartamentos expressam sua desaprovação ao não comparecer. Ou talvez eles sejam simplesmente apáticos. Ou talvez, como eu, não possam assistir às reuniões nos horários estipulados. O resultado é que o presidente é sempre eleito entre os membros da camarilha e se torna cada vez mais autoritário.

Um exemplo extremo desse autoritarismo é o pagamento da taxa de condomínio mensalmente. Durante os primeiros 6 anos em que morei no prédio, os propriet­ários de apartamentos pagavam mensalmente a taxa de condomínio em cheque. Nunca houve incidência de pessoas que não pagam ou pagam com atraso. Não obstante, um novo jovem, que se mudou para um dos apartamentos, há cerca de dois anos, rapidamente se infiltrou na camarilha e (presumo) foi eleito presidente do condomínio.

Ele imediatamente implementou um novo sistema de pagamento. Todo mês, ele envia um recibo de pagamento bancário com código de barras para cada propriet­ário de apartamento. O código de barras é único para cada apartamento e para cada mês. Consequentemente, o proprietário de um apartamento não pode pagar sua taxa até que receba o recibo do mês, por e-mail, e o imprima em sua impres­sora de computador. É preciso presumir que agora cada ocupante é legalmente obrigado a ter um computador, uma conexão à Internet e uma impressora, que são obrigados a estar sempre em funcionamento.

O recibo de pagamento é emitido normalmente no dia 28 de cada mês, embora seja uma condescendência do presidente. É oficialmente emitido no primeiro dia do mês em que a taxa é devida. Porém, cada proprietário tem até o dia 7 do mês para que o pagamento seja recebido pelo banco. Isso geralmente leva 5 dias úteis. Se ele atrasar o pagamento, o banco deverá pagar uma multa extra de 10%.

Observação: ele não pode pagar antecipadamente porque não pode pagar antes de receber e imprimir o comprovante de pagamento. Portanto, ele tem efetivamente apenas uma janela de 5 dias para pagar ou ser multado em 10%.

Para mim, isso é ultrajante. Isso significa que ninguém pode se ausentar de casa entre o dia 1º e o dia 7 de qualquer mês, a menos que esteja disposto a pagar a multa de 10% e a ser registrado como atrasado pelo banco. Ele não pode viajar a negócios durante esse período, a menos que haja alguém em seu apartamento que possa fazer o pagamento por ele. Ele não pode se ausentar de férias durante este período, a menos que esteja novamente preparado para incluir a multa de 10% e ser rotulado como atrasado pelo banco como parte do custo de suas férias. Reclamei disso, mas minha reclamação foi ridicularizada.

O presidente do condomínio diz que, se for necessário ausentar-se durante este período apertado, contacte-o para o envio antecipado do boletim de pagamento. Isso, no entanto, é repleto de estresse e incerteza para o proprietário do aparta­mento: não para o presidente. Na única vez em que solicitei um comprovante de pagamento antecipado, ele chegou na 11ª hora da noite anterior à nossa partida. Às vezes, o sistema on-line do banco para a emissão de boletos de pagamento fica indisponível por mais de um dia.

Existem inúmeras situações em que o proprietário do apartamento pode estar em uma posição impossível de pagar em dia sem ser por sua própria culpa. Mas, quem quer que seja a culpa, é o proprietário individual do apartamento que tem de pagar a multa, que é automaticamente adicionada à conta seguinte pelo computador do banco. E é o banco que entrará automática e cegamente na justiça para recuperar a multa caso ela não seja paga: não o presidente do condomínio.

Essa prática é extremamente autoritária e tenho a noção de que também é ilegal: embora a última seja irrelevante quando é um indivíduo contra o poder de um banco sem rosto. Assim, como sempre, em uma sociedade capitalista, o ônus e o estresse são externalizados, pela empresa, sobre os ombros do indivíduo - o partido mais fraco. A mentalidade do cretino onipotente permeia as autoridades mais humildes.

O portão principal da garagem do condomínio é controlado por um pequeno rádio, um dos quais cada morador do condomínio possui. Porém, se ocorrer um corte de energia, o que não é incomum durante chuvas fortes, o motor que abre o portão não funcionará. Neste caso, deve-se usar uma chave para destravar o cadeado que prende o braço do motor e depois usar outra chave para abrir o portão. Ambas as chaves são fornecidas a cada morador quando ele compra seu apartamento.

Há alguns anos, o cadeado e a fechadura do portão foram trocados. Cada um recebeu um novo par de chaves que cada residente devidamente assinou. Recebi a chave correta do portão, mas a chave do cadeado do braço não funcionou. Reclamei e recebi outra chave. Isso também não funcionou. Reclamei várias vezes, mas fui ridicularizado e ignorado. Eu desisto.

Parece que não fui o único, embora não saiba quantos outros moradores foram afetados. Parece que o presidente do condomínio na época não queria que certas pessoas pudessem abrir o portão para colocar e retirar seus carros da garagem durante uma queda de energia. O motivo de tudo isso? Eu não sei. Acho que alguns de nós simplesmente não fazem parte da camarilha.

Também parece haver uma relutância distinta em recodificar as unidades de rádio de certas pessoas quando o chamado 'conselho' do condomínio decide alterar o código. Voltei recentemente depois de fazer compras, esperando entrar pela garagem para pegar o elevador do nível do solo. Mas eles mudaram o código do controlador do portão. Então, no meu 79º ano, tendo caminhado 600 metros colina acima com um mochila de 88 litros cheio das provisões da semana nas minhas costas, eu tive que subir mais um andar de degraus até a porta do corredor. Parece ser o que devo fazer de agora em diante.

Resposta da Covid-19

Os efeitos colaterais externalizados desse autoritarismo mesquinho foram bem ilus­trados durante a pandemia de Covid-19 em 2020. Na época, eu tinha 78 anos e estava na categoria de risco muito alto da Covid-19. Todo conselho para pessoas da minha idade era ficar em casa e não sair. E certamente não para visitar lojas ou bancos e assim por diante. Consegui telefonar para pedir comida. Mas o dinheiro era um problema totalmente diferente.

Eu me sinto muito desconfortável com o Internet banking. Tendo estado na ind­ústria de TI e Telecomunicações toda a minha vida, posso ver suas vulner­abili­dades, a partir das quais, noto pelas letras miúdas onipresentes, os bancos se isentam de qualquer responsabilidade. Por algum motivo, no início da pandemia, meu banco na Internet travou. Para desbloqueá-lo, eu teria que ir até a filial para desbloqueá-lo. Mas, é claro, essa filial foi fechada e sem pessoal por causa da pan­demia. Portanto, nenhum banco pela Internet através do meu computador normal.

A única outra forma de fazer pagamentos era por meio de um 'aplicativo' instalado em um smartphone. Com relutância, comprei uma daquelas coisas ridículas, princi­pal­mente para mandar mensagens para parentes no exterior. Claro, em uma tela que é muito pequena para que eu possa ler corretamente e um touch pad que é muito pequeno para meus dedos, consigo enviar mensagens de texto de certa forma. Não obstante, o que é enviado geralmente é algo sem sentido e muitas vezes enviado prematuramente quando parte da minha junta acidentalmente esbarra no símbolo 'vá'. E devo usar isso para realizar transações financeiras??!!! Naturalmente, os bancos não se importam: qualquer erro será 'minha culpa'. Além disso, o banco espera que eu conceda permissão para eles usarem meu telefone para fazer chamadas. Não, obrigado. O banco por smartphone não é para mim. Vou deixar que outros velhos acidentalmente joguem dinheiro fora, sabe-se lá para onde.

Diante da situação de não conseguir pagar as minhas dívidas condominiais da maneira normal, sem ter que entrar na fila de um aglomerado de outras pessoas em uma Loterica ou banco, perguntei à administradora do condomínio o que eu poderia fazer. A administradora do condomínio informou que não aceitaria dinheiro. Nem aceitariam cheques. Eles também não aceitariam um cartão de débito. Não tenho cartão de crédito porque, mesmo sem a pandemia Covid-19, não tenho nen­hum mecanismo de pagamento mensal. O condomínio só aceitaria pagamento em caixa eletrônico de banco ou Internet banking.

Ou, como sempre me dizem enfaticamente, eu poderia pagar por débito direto e, assim, ser dispensado de fazer qualquer coisa. No entanto, posso desejar, um dia, vender este apartamento e, assim, sair do condomínio. E não desejo, em tal caso, ser sobrecarregado com a gigantesca tarefa adicional de anular os pagamentos regulares pelo devido processo legal, o que, na minha experiência de instituições, é sem dúvida a forma como deveria ser feito.

Indeciso sobre o que fazer, não paguei meu condomínio em dia. Fui devidamente multado em 10% por estar dois dias atrasado. Portanto, como uma pessoa do grupo de alto risco da Covid-19, eu tinha que entrar na fila do banco todos os meses e pagar em um caixa eletrônico usado por várias pessoas por hora.

Atrasei também o pagamento da conta de telefone [que, como sempre, havia chegado no dia do prazo estipulado para pagamento]. Como resultado, a operadora de telecomunicações Oi ameaçou desligar meu telefone e reduzir minha velocidade de Internet. Como estou na velocidade mais baixa disponível, presumo que isso significaria também cortar a Internet. Em outros Estados do Brasil, houve decisões judiciais em nível federal que as operadoras de telecomunicações não poderiam cortar o serviço de telefonia por pelo menos 3 meses. Em qualquer caso, meu serviço de Internet ficou inativo por pouco mais de 15 dias durante a pandemia porque ladrões roubaram os cabos dos dutos das ruas. No entanto, sendo a parte mais fraca, fui cobrado pelo serviço contínuo completo durante o tempo de inatividade.

Claramente, para uma sociedade capitalista, acomodar os idosos é uma fuga de lucro evitável. Doença, praga e morte não importam: só o dinheiro importa; mesmo para uma instituição tão pequena como uma administração de condomínio. Além disso, sua insistência em que tudo deve ser conduzido pela Internet e sua con­fi­ança total impulsiva e irrefletida nela é disfuncional e insensivelmente irrespons­ável.

A Última Palha

No início de agosto de 2020 — no auge da pandemia de Covid 19 — ocorreu um milagre. O barulho noturno parou. Bem, continuou na medida em que havia água sendo ligada e desligada a noite toda. Mas, neste lugar, isso era normal. O principal é que as marteladas e remendos incessantes, as máquinas giratórias e o barulho do rádio nas primeiras horas [00:30 às 05:30] finalmente se extinguiram. Seria o fim de uma era — uma era que remonta a pelo menos 12 anos?

De jeito nenhum! Em 6 de agosto de 2020, uma obra do que parecia ser uma re­construção interna total foi iniciada no apartamento adjacente ao nosso no 4º andar. Pelos próximos 4 meses, seríamos submetidos a um batismo sem prece­dentes no inferno. Martelos motorizados quebrando paredes, que não tínhamos escolha a não ser suportar em um espaço fechado sem proteção para os ouvidos. Martelos e cinzéis constantes raspando o concreto. As vigas de concreto armado de aço do prédio transmitiram todas as nuances desse trauma acústico para cada canto do nosso apartamento. Não havia como escapar. Tenho 78 anos. Minha esposa tem 70 anos. Estamos no auge da pandemia de Covid 19, entrando agora na segunda onda. Disseram-nos para ficar em casa. Em qualquer caso, não temos para onde ir. Este Inferno é nossa única opção.

Existem períodos de relativo silêncio durante o dia. Mas este Inferno Sônico tem sua presença permanente, pois nunca sabemos quando a próxima barragem nos atingirá de repente. Não podemos nos preparar para isso. Nunca há nenhum aviso. Estamos permanentemente no limite de nossos nervos. Mas não há nada que possamos fazer a respeito. Não temos recurso. Estamos irremediavelmente em desvantagem. A grande maioria dos habitantes dos outros apartamentos são jovens empresários em ascensão ou de classe média profissional: o que no Reino Unido dos anos 1980 seria o típico Thatcher. Apenas "eu" importa. "Eu" faço o que "eu" quero. "Eu" não me importo com nenhum efeito colateral adverso que "eu" possa precipitar sobre os outros, desde que "eu" consiga o que "eu" desejo. E como os "eus" formam a camarilha mais yuppie do condomínio, o que eles querem é o que todos devem sofre.

Mas, como eu disse, não podemos fazer nada a respeito. Não temos recurso. Os yuppies, aparentemente, não ouvem nenhum barulho. Lembro-me deles coment­ando entre si que nossas reclamações eram ridículas e não podiam imaginar do que estávamos reclamando. Obviamente, eles não ouviriam. Eles estão fora o dia todo. Consequentemente, nossas queixas são recebidas com a mesma resposta cínica. Além disso, somos informados de que as pessoas têm que reformar suas propriedades e que, conforme determina o governo brasileiro e os sites municipais, os vizinhos devem mostrar tolerância em tais circunstâncias. A palavra 'tolerância' é um termo muito subjetivo, que aposto que seria extremamente assimétrico se o agressor e a vítima fossem revertidos.

Mas isso não é uma renovação: é uma reconstrução total. É necessário implantar martelos de orelha ensurdecedores por 4 meses para redecorar um apartamento? Existe uma razão. Isso é absurdo. E há absurdo acima do absurdo. Eu realmente não entendo por que, se as pessoas sentem que têm que remodelar completa­mente o interior de um apartamento, por que não, em vez de criar tanta miséria colateral para os outros, elas simplesmente não se mudam para um apartamento que se adapte melhor às suas necessidades. Há uma abundância de novos apartamentos à venda. Em vez disso, no calor da pandemia de Covid 19, eles têm uma equipe de empreiteiros rastejando por todo o prédio espalhando poeira e contaminação - e sem uma máscara facial à vista.

Durante o barulho de ontem [Quarta, 18 de novembro de 2020], meus ouvidos doeram de verdade. Peguei meus fones de ouvido com compensador ativo Bose Quiet Comfort 15, coloquei-os e liguei o compensador. MESMO ASSIM, o barulho ainda era in­suportável. Minha esposa insistiu veementemente que eu usasse os fones de ouvido e ela não. Ela foi para o quarto e enterrou a cabeça sob os travesseiros. Naquela noite, foi como o som alto de estática de rádio na minha cabeça. Não iria embora. Gradualmente desapareceu ao amanhecer. Mas então veio a antecipação de um novo dia de tortura sônica.

Mas o pior estava por vir. Em 24 de novembro de 2020, entre 10:15 e 10:20, ocorreram vários estrondos enormes. Certamente não foram causados por martelos ou ferramentas de máquina. Não consigo ver como eles poderiam ter sido causados a não ser pelo uso de explosivos. O som característico de um explosivo é muito diferente do impacto mecânico de um martelo elétrico. Os estrondos foram tão altos que fizeram os cachorros latirem furiosamente na vizinhança. Meu primeiro pensamento foi que um transformador havia explodido na rua. Mas estrondos subsequentes deixaram óbvio que eles estavam dentro do prédio. Então pensei que talvez eles estivessem usando cinzéis auxiliados por cartucho ou chaves de prego. Mas as batidas eram altas demais para ser o caso. Pensei em chamar a polícia, mas não o fiz. Sempre reluto em chamar a polícia. Eu não sabia o que estava acontecendo.

Lembro-me que na manhã seguinte, como minha cabeça ainda estava tocando como um sino, de repente veio à minha mente: "We Gotta Get Out Of This Place" — uma música de 1965 por a banda "The Animals". E foi isso que resolvemos fazer. As ações e comportamentos dos habitantes deste edifício estão nos deixando loucos e prejudicando nossa saúde e audição. Não sei como vamos fazer isso. Meu filho ofereceu a oportunidade de morar com ele no Canadá [ele é canadense]. Mas há muitas pontas soltas para resolver aqui.

Claro, certos membros da camarilha estão ansiosos para fazer uma oferta pelo meu apartamento. Mas não vou vendê-lo para aqueles que efetivamente nos expuls­aram de casa. O ideal seria baixar o preço de venda do meu apartamento pela metade do valor de mercado e vender para algum traficante de favela, que acho que seria um tipo de vizinho mais adequado e com­patível para essas pessoas.

Sei que estamos na Terceira Idade em vida e que eles são jovens e em idade produtiva. Isso, por si só, está fadado a suscitar todo tipo de incompatibilidades. Mas por que eles devem ter todas as nuances de luxo e satisfação em sacrifício de uma vida de descanso, sanidade e tranquilidade para os vizinhos mais velhos? É por esta razão que sou um firme defensor do Apartheid. Não por motivos raciais, mas por motivos de idade e estilo de vida. Quando compramos este apartamento, estávamos apenas comprando um lugar para morar. Não tínhamos ideia da cultura e das preferências de quem morava ali ou de quem viria a morar ali. Deve haver alguma forma de zoneamento por idade e estilo de vida. Infelizmente, tendo em vista a fábrica 24 horas no dormitório abaixo do nosso, não existe sequer uma forma de zoneamento que diferencie entre uso residencial e industrial.

Sei que a atual tortura acabará em um ou dois meses. Apesar de tudo, nada existe que impeça que a produção nocturna no "quarto" por baixo do nosso e as in­evitáveis festas noturnas recomeçam. E continuar. Ou outros vizinhos podem iniciar grandes reformas em seus apartamentos. E talvez algo ainda pior e ainda não imaginado.

Em meados de fevereiro de 2021, eu ainda tinha o barulho na cabeça, que agora parece ser permanente, embora agora só me incomode à noite. Mas devo ser "tolerante".

Então sim, de uma forma ou de outra, "Precisamos sair deste lugar, se é a última coisa que fazemos." É um buraco do inferno absoluto. Mas estamos velhos e a Covid 19 acaba de começar sua ascensão na segunda onda. Deveríamos passar pelo trauma de uma mudança de casa nesta situação? Parece ser uma escolha entre tortura e morte. Eu sei que nossas vidas não têm muito tempo para correr. No entanto, acho que merecemos algum nível de paz e tranquilidade em nossos anos finais. Mas talvez, tudo o que foi dito, o único lugar real de paz e tranquilidade neste mundo seja o túmulo.

Será que esse pesadelo pode ser substituído pelo Brasil que poderia ser, como descrevi no início do meu discurso? Se houvesse vontade, certamente poderia. Mas, como diria o Comandante Spoke: "A ganância de poucos supera a necessi­dade de muitos". Então, provavelmente não.


Document Pais | ©novembro 2020 Robert John Morton